domingo, 19 de julho de 2009

ONÇA DENTRO DE CASA!


Essa semana foi bastante agitada no Centro de Triagem de Animais Silvestres do IBAMA GO. Entraram aproximadamente 60 animais silvestres, entre eles 3 filhotes de onça parda, que se tornaram a atração para todos os funcionários. Desde que chegaram estão recebendo tratamento “VIP” , principalmente da funcionária Laura Widerhecker, que as vezes ganha até alguns puxões de orelha , por mimar demais as bichinhas.

Essas onças chegaram após serem resgatadas pelo Corpo de Bombeiros, próximo de uma estrada estadual goiana, no município de Anicuns. Um policial ambiental os avisou da presença das onças no local após uma paradinha pra “tirar água do joelho”. Como os animais estavam em uma área de plantio de cana, acreditaram que a mãe poderia ter sido queimada.

Posteriormente descobrimos que na verdade um funcionário da usina de açúcar havia tirado os animais do local onde estavam e os levado até onde foram encontrados pelo corpo de bombeiros. Provavelmente a mãe-onça estava procurado os filhotes e foi um erro grave tê-los tirado do local onde estavam (principalmente na primeira vez). Dois dia depois, na última quita-feira (16 de julho), recebemos a notícia que havia uma onça parda há dois quilômetros de onde as oncinhas foram encontradas. Fomos até o local, fizemos que elas urinassem nelas mesmas, para aumentar o “bafo de onça” no ar, as deixamos com fome para “assoviarem” e sozinhas por aproximadamente 6 horas, mas a mãe, infelizmente, não apareceu (se é que era ela).

Na sexta-feira tentamos novamente, e dessa vez levamos um carneiro como isca, para atrair a “bichona”. Novamente deixamos os filhotes com fome, e, com protestos da Laura, permitimos que eles passassem a noite no local. As 7 horas da manhã retiramos os filhotes de volta pra Goiânia, sem que a mãe aparecesse. Por fim avaliamos que deixá-las com fome mais uma vez, no frio, poderia baixar sua imunidade, e decidimos não arriscar mais devolvê-las pra mamãe.

Então, como eles tem que se alimentar 5 vezes por dia, e apesar de ter uma onça em casa (acho que ela não vai gostar dessa parte), levei mais três pra passar o fim-de-semana. Aqui, treinamos um pouco como tratar de um filhotinho. Fizemos mamadeira, acordamos cedo, e como toda mamãe onça, “lambemos” suas partes genitais para fazerem “pipi” e “popô” (na verdade passamos um lenço de papel úmido nas “xaninhas”). Agora já estou pronto pra ter filhote com a dona Onça!!!!!!!!!!!!!!!!

As bichinhas agora serão mantidas no CETAS até o dia em que encontremos algum criadouro conservacionista ou mantenedor de fauna para cuidar dos filhotinhos para o resto de suas vidas. Infelizmente, é quase impossível reintegrá-las a natureza, entre outros motivos, por se tratarem de predadores de topo e elas influenciariam muito a comunidade estabelecida no local onde forem soltas. Além disso, elas só poderiam ser soltas após ficarem adultas, e estariam acostumadas a adquirir alimentação com os seres humanos, o que poderia causar problemas nas propriedades da área. Desta forma, alguém se habilita?

segunda-feira, 9 de março de 2009

Colorindo o ambiente

O IBAMA está sendo pintado mais uma vez de vilão contra “pessoas idosas e doentes”, pois “levou embora a felicidade” dos mesmos ao apreender “os animais que ajudavam a dar sentido à vida” de um senhor de 86 anos e que supostamente eram cuidados há vinte anos.
Vamos aos fatos: Este senhor foi autuado no ano de 2000 por possuir mais de 400 animais em cativeiro de forma irregular. Vou repetir: Mais de 400 animais. O senhor entrou com recurso e os animais foram deixados com o mesmo, pois o IBAMA não possuía uma estrutura adequada para recepcionar tantos animais na época. O recurso foi julgado em todas as instâncias e o Presidente do IBAMA decidiu que eles deveriam ser retirados do local, ou seja, retirados de quem capturou todos aqueles pássaros, pois poderíamos abrir precedentes e beneficiar quem cometeu uma ilegalidade ao tirar tantos animais de sua liberdade.

Na última sexta-feira, dia 06 de março de 2009, voltamos à residência daquele senhor com um efetivo grande de policiais ambientais e agentes do IBAMA uma vez que eram esperados mais de 400 animais na residência. Em respeito à idade do senhor, deslocamos inicialmente somente uma equipe com três agentes para dizermos por que estávamos ali e contamos também com o apoio do corpo de bombeiros que deslocou uma viatura até o local. Somente após percebermos que o senhor reagiu bem à notícia de que iríamos levar os animais, o restante da equipe foi até a residência.

Encontramos lá somente 121 aves. Alguns dos animais que também supostamente serão “melhor tratados na residência do senhor de 86 anos do que nos viveiros do IBAMA” apresentavam claros sinais de estresse, pois nem penas possuíam, algumas gaiolas e viveiros não possuíam nenhuma condição de manter os animais e pasmem: pelo menos 2 sabiás laranjeiras estavam cegos porque os olhos foram furados, estratégia geralmente utilizada por criadores para fazer com que a ave cante também durante a noite.

Adicionalmente, apreendemos 6 alçapões, um deles novinho, que acabara de ser fabricado, demonstrando a intenção “bondosa” do senhor de continuar a prender novos animais para continuar dando “sentido a sua vida”.

Agora questionamos, que sociedade é essa que acredita que o correto é deixar com quem retirou, prendeu, acabou com a liberdade para seu simples deleite daqueles que um dia voaram e coloriram nossos céus?




Que sociedade é essa que acredita que por uma pessoa ter vivido muito e ter muito a ensinar, como todos os senhores com mais de 80 anos, devem ter seus atos ilegais perdoados, sem qualquer punição?
Lembramo-nos do filme Fernão Capelo Gaivota, que nos arrepia ao demonstrar não só a importância de não se acomodar e de tentar superar seus limites mas também a importância da verdadeira liberdade e de “voar” cada vez mais alto.

As vítimas nessa história estavam dentro de gaiolas, alguns há muito tempo, outros provavelmente há pouco tempo não colorem mais nossos céus, apenas porque “pessoas que nunca comerciaram estes animais” queriam colorir e dar sentido a sua vida. Agora, no CETAS do IBAMA estes animais passarão por quarentena, terão as melhores rações disponíveis, além de biólogos, veterinários, tratadores e voluntários a sua disposição para serem mais bem tratados.

E por fim, todos ficariam surpresos ao perceber que passarinhos que passaram anos em cativeiro (só no CETAS mais de um ano) já estão com vários filhotes na natureza, pois entraram para o PROJETO ASAS do IBAMA e foram soltos novamente. Lá, em uma propriedade em Aragoiânia, estão colorindo novamente nossos céus e deixando descendentes, que esperamos, nunca sejam capturados por “senhores inocentes”.


Leo Caetano é Biólogo e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Goiás e atualmente é Coordenador de Fauna e Recursos Pesqueiros do IBAMA.
p.s. Este Blog contém opiniões pessoais e não institucionais.