O IBAMA está sendo pintado mais uma vez de vilão contra “pessoas idosas e doentes”, pois “levou embora a felicidade” dos mesmos ao apreender “os animais que ajudavam a dar sentido à vida” de um senhor de 86 anos e que supostamente eram cuidados há vinte anos.
Vamos aos fatos: Este senhor foi autuado no ano de 2000 por possuir mais de 400 animais em cativeiro de forma irregular. Vou repetir: Mais de 400 animais. O senhor entrou com recurso e os animais foram deixados com o mesmo, pois o IBAMA não possuía uma estrutura adequada para recepcionar tantos animais na época. O recurso foi julgado em todas as instâncias e o Presidente do IBAMA decidiu que eles deveriam ser retirados do local, ou seja, retirados de quem capturou todos aqueles pássaros, pois poderíamos abrir precedentes e beneficiar quem cometeu uma ilegalidade ao tirar tantos animais de sua liberdade.
Na última sexta-feira, dia 06 de março de 2009, voltamos à residência daquele senhor com um efetivo grande de policiais ambientais e agentes do IBAMA uma vez que eram esperados mais de 400 animais na residência. Em respeito à idade do senhor, deslocamos inicialmente somente uma equipe com três agentes para dizermos por que estávamos ali e contamos também com o apoio do corpo de bombeiros que deslocou uma viatura até o local. Somente após percebermos que o senhor reagiu bem à notícia de que iríamos levar os animais, o restante da equipe foi até a residência.
Encontramos lá somente 121 aves. Alguns dos animais que também supostamente serão “melhor tratados na residência do senhor de 86 anos do que nos viveiros do IBAMA” apresentavam claros sinais de estresse, pois nem penas possuíam, algumas gaiolas e viveiros não possuíam nenhuma condição de manter os animais e pasmem: pelo menos 2 sabiás laranjeiras estavam cegos porque os olhos foram furados, estratégia geralmente utilizada por criadores para fazer com que a ave cante também durante a noite.
Adicionalmente, apreendemos 6 alçapões, um deles novinho, que acabara de ser fabricado, demonstrando a intenção “bondosa” do senhor de continuar a prender novos animais para continuar dando “sentido a sua vida”.
Agora questionamos, que sociedade é essa que acredita que o correto é deixar com quem retirou, prendeu, acabou com a liberdade para seu simples deleite daqueles que um dia voaram e coloriram nossos céus?
Lembramo-nos do filme Fernão Capelo Gaivota, que nos arrepia ao demonstrar não só a importância de não se acomodar e de tentar superar seus limites mas também a importância da verdadeira liberdade e de “voar” cada vez mais alto.
As vítimas nessa história estavam dentro de gaiolas, alguns há muito tempo, outros provavelmente há pouco tempo não colorem mais nossos céus, apenas porque “pessoas que nunca comerciaram estes animais” queriam colorir e dar sentido a sua vida. Agora, no CETAS do IBAMA estes animais passarão por quarentena, terão as melhores rações disponíveis, além de biólogos, veterinários, tratadores e voluntários a sua disposição para serem mais bem tratados.

Leo Caetano é Biólogo e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Goiás e atualmente é Coordenador de Fauna e Recursos Pesqueiros do IBAMA.
p.s. Este Blog contém opiniões pessoais e não institucionais.