segunda-feira, 9 de março de 2009

Colorindo o ambiente

O IBAMA está sendo pintado mais uma vez de vilão contra “pessoas idosas e doentes”, pois “levou embora a felicidade” dos mesmos ao apreender “os animais que ajudavam a dar sentido à vida” de um senhor de 86 anos e que supostamente eram cuidados há vinte anos.
Vamos aos fatos: Este senhor foi autuado no ano de 2000 por possuir mais de 400 animais em cativeiro de forma irregular. Vou repetir: Mais de 400 animais. O senhor entrou com recurso e os animais foram deixados com o mesmo, pois o IBAMA não possuía uma estrutura adequada para recepcionar tantos animais na época. O recurso foi julgado em todas as instâncias e o Presidente do IBAMA decidiu que eles deveriam ser retirados do local, ou seja, retirados de quem capturou todos aqueles pássaros, pois poderíamos abrir precedentes e beneficiar quem cometeu uma ilegalidade ao tirar tantos animais de sua liberdade.

Na última sexta-feira, dia 06 de março de 2009, voltamos à residência daquele senhor com um efetivo grande de policiais ambientais e agentes do IBAMA uma vez que eram esperados mais de 400 animais na residência. Em respeito à idade do senhor, deslocamos inicialmente somente uma equipe com três agentes para dizermos por que estávamos ali e contamos também com o apoio do corpo de bombeiros que deslocou uma viatura até o local. Somente após percebermos que o senhor reagiu bem à notícia de que iríamos levar os animais, o restante da equipe foi até a residência.

Encontramos lá somente 121 aves. Alguns dos animais que também supostamente serão “melhor tratados na residência do senhor de 86 anos do que nos viveiros do IBAMA” apresentavam claros sinais de estresse, pois nem penas possuíam, algumas gaiolas e viveiros não possuíam nenhuma condição de manter os animais e pasmem: pelo menos 2 sabiás laranjeiras estavam cegos porque os olhos foram furados, estratégia geralmente utilizada por criadores para fazer com que a ave cante também durante a noite.

Adicionalmente, apreendemos 6 alçapões, um deles novinho, que acabara de ser fabricado, demonstrando a intenção “bondosa” do senhor de continuar a prender novos animais para continuar dando “sentido a sua vida”.

Agora questionamos, que sociedade é essa que acredita que o correto é deixar com quem retirou, prendeu, acabou com a liberdade para seu simples deleite daqueles que um dia voaram e coloriram nossos céus?




Que sociedade é essa que acredita que por uma pessoa ter vivido muito e ter muito a ensinar, como todos os senhores com mais de 80 anos, devem ter seus atos ilegais perdoados, sem qualquer punição?
Lembramo-nos do filme Fernão Capelo Gaivota, que nos arrepia ao demonstrar não só a importância de não se acomodar e de tentar superar seus limites mas também a importância da verdadeira liberdade e de “voar” cada vez mais alto.

As vítimas nessa história estavam dentro de gaiolas, alguns há muito tempo, outros provavelmente há pouco tempo não colorem mais nossos céus, apenas porque “pessoas que nunca comerciaram estes animais” queriam colorir e dar sentido a sua vida. Agora, no CETAS do IBAMA estes animais passarão por quarentena, terão as melhores rações disponíveis, além de biólogos, veterinários, tratadores e voluntários a sua disposição para serem mais bem tratados.

E por fim, todos ficariam surpresos ao perceber que passarinhos que passaram anos em cativeiro (só no CETAS mais de um ano) já estão com vários filhotes na natureza, pois entraram para o PROJETO ASAS do IBAMA e foram soltos novamente. Lá, em uma propriedade em Aragoiânia, estão colorindo novamente nossos céus e deixando descendentes, que esperamos, nunca sejam capturados por “senhores inocentes”.


Leo Caetano é Biólogo e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Goiás e atualmente é Coordenador de Fauna e Recursos Pesqueiros do IBAMA.
p.s. Este Blog contém opiniões pessoais e não institucionais.

9 comentários:

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  3. Esse texto foi escrito devido o belíssimo texto escrito pelo Professor Lisandro Nogueira da UFG (encontrado em seu blog. Tenho certeza que não cheguei aos pés do professor quanto a beleza poética de seu texto, mas apresento uma nova visão da ação do IBAMA. Espero encontrar o professor mais vezes para discutirmos melhor nossas opiniões divergentes.
    http://lisandronogueira.blogspot.com/

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  4. Grande, Leo!

    Parabéns pela iniciativa! Tanto pelo Blog em sim, quanto pela primeira postagem; li o post original do Prof Lisandro, e fiquei imaginando como teria sido minha reação se o tivesse lido sem ter lido o seu...

    Enfim, não concordo com a maior parte dos argumentos que ele deu em resposta, mas achei ótimo sua postagem ter sido publicada por lá também.

    Leo, só uma coisa: acho que você poderia incluir no corpo da sua postagem (não nos comentários, porque nem todo mundo lê) o link para o texto do Prof. (e não para o blog todo; eu mesmo demorei pra ver onde ele falava do Ibama, porque pensei que o texto ele era sobre cinema...).

    Abração

    Marcos

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  5. hehe, já estou comentadando de novo. Desta vez por causa da enquete. Bom, enquete é enquete, tem que ser simples mesmo. Mas no caso da pergunta que você fez, um sim ou não é simples demais.

    Acho que, para responder sua pergunta, eu teria que perguntar de volta: que tipo de dono? Pra mim, uma coisa seria uma pessoa que tem um ou outro bicho em casa (o cara tem lá um papagaio de 15 anos de idade, ou um casal de cágados); e outra coisa seria o sujeito que tem algumas centenas de bichos. No primeiro caso, eu consideraria a possibilidade do "dono" manter o bicho. É aquele caso de que cada caso e um caso (hehe), claro; mas neste tipo de situação, acho que a possibilidade deveria ser avaliada. Agora, quando tempos um "dono" com praticamnete um zoológico particular, as coisas ficam mais complicadas. Não que um sujeito não possa ter centenas de bichos e cuidar muito bem deles, mas já acho isso bem mais difícil.

    Na enquete, votei não, assumindo um caso mais parecido com o que você descreveu. Mas para a pergunta de maneira mais ampla, eu responderia o bom e velho "depende".

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  7. Esse texto me lembrou uma vez que, no programa da Ana Maria Braga, ligaram para algum coordenador do Ibama porque haviam apreendido um papagaio de uma senhora e isso era um ABSURDO. Depois de toda aquela ladainha emotiva, eles comemoraram quando a pessoa do Ibama disse que tinha que analisar o caso. Novamente veio essa história de que o animal era o sentido da vida dela e tal.

    Bom, de algum lugar esse papagaio saiu e provavelmente não deve ter sido de um criadouro conservacionista. Agora se todos os idosos do Brasil resolverem ter um animal silvestre ilegal em casa isso vai ser um problema dos grandes.

    Os brasileiros já estão tão acostumados ao "jeitinho" que não importa o que diga a lei, sempre vai haver um motivo para que ela seja esquecida, seja por ser um idoso, ou uma criança ou um adulto.

    Quando se está idoso, espera-se que se dê o exemplo e não que se abram inúmeras exceções contra a lei. Quem tem 90 anos e assalta um banco está tão errado quanto o de 20 que fez a mesma coisa.

    Outra coisa, quem acha um absurdo o aparato da polícia em uma apreensão é porque nunca esteve em uma.

    Não existe nenhum motivo, seja ele idade, sexo ou qualquer outro que, justifique manter 400 ou um animal ilegalmente em cativeiro. Abrir exceção a isso é apoiar o tráfico de animais.

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  8. Grande Léo,
    Passei para dizer que gostei muito desse seu texto, antes mesmo de lê-lo aqui (ele me chegou por e-mail há umas duas semanas). Pelo texto e pelo blog, parabéns.
    Aproveito para indicar um outro blog também bacana (rsrs). Quando puder visite www.deriva.blog.com

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  9. Grande Leo,

    finalmente conseguir postar aqui algum comentário. Bem, parabéns pela iniciativa e por demonstrar que, apesar de tudo, o IBAMA tem pessoas que trabalham em um sentido honesto e que preza a natureza. O texto ficou bacana, espero mais deles daqui para a frete.

    E dá-lhe ferro no velhinho que não sabe cuidar dos bichos

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